Compartilhar :

SETEMBRO: Conquistar uma vida que valha a pena ser vivida

Por André Guerra *

Sob o termo “suicídio” estão incluídas experiências muito diversas. Quando o tomamos de forma genérica, desconsideramos suas especificidades. E o que há de mais característico no suicídio é sua radical singularidade. Nunca há dois suicídios idênticos. Compreender isso é decisivo para lidarmos com esse desfecho tão dramático, mas cada vez mais frequente na categoria bancária.

Reconhecendo essa singularidade, a pergunta que a categoria bancária deve se fazer não é o que “causa” os suicídios, em geral, mas quais características específicas do trabalho bancário motivam esse desfecho pontualmente na categoria. O primeiro passo nessa busca é: não teorizarmos no escuro.Os dados de Saúde da classe trabalhadora, especialmente sobre suicídio, sofrem com a subnotificação. Muitos bancários trabalham por muito tempo doentes, em sofrimento, com ideação suicida. Mas esses dados não chegam aos sindicatos. E essa ausência nunca beneficia às vítimas.

Precisamos de dados expressivos, atualizados e disponíveis para identificar a situação da categoria em níveis local, estadual, regional e nacional. Para isso, é preciso superar o estigma, parar de sofrer em silêncio. Ao não calar suas mazelas, a categoria revela que quem está doente é o banco.

Com base em minha experiência clínica com bancários que pensaram ou tentaram suicídio, tenho convicção de que, ao explicitar a singularidade desse sofrimento, encontraremos um fator comum: a violação sistemática da dignidade humana.

A prevenção ao suicídio é essencial, mas reduzi-la à diminuição de atestados de óbito é um erro. O suicídio não é ponto final dessa discussão. Há uma questão mais profunda: a vida que vale a pena ser vivida pelos trabalhadores do sistema financeiro.

Embora haja divergências sobre o que é uma vida que vale a pena, um ponto é inegável: ela precisa ser digna. E isso não se conquista apenas reduzindo as taxas de suicídio, mas promovendo a vida da categoria em todos os seus aspectos — e reprimindo qualquer violação à sua dignidade.

O primeiro passo para a cura é reconhecer a doença. A doença que leva a categoria ao suicídio é um trabalho organizado de forma hostil e violadora da dignidade humana. Promover a vida é não aceitar o inaceitável. Sempre denuncie ao seu sindicato. Toda dor importa.

 

* Psicólogo e advogado, Especialista em Psicologia Clínica fenomenológico-existencial, Doutor e Mestre em Psicologia Social, Assessor Técnico do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região

Fonte: SEEB-RO

Comente o que achou:

Jornal

Cartilha